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Você se ajuda?

  • Foto do escritor: talita.galana
    talita.galana
  • 15 de jun.
  • 3 min de leitura

Ajudar-se vai na contramão de cobrar-se. É retirar-se da paralisia do sofrimento e ir em direção à ação possível, mesmo que mínima. É ser um cuidador suficientemente bom para si mesmo, alguém que se acolhe e busca, em alguma medida, facilitar a própria vida. Não para evitar os desafios, mas de atravessá-los com mais sustentação interna.


Caminhamos para esse lugar quando estabelecemos uma boa relação com nós mesmos. Quando você reconhece que pode contar consigo, assim como pode pedir ajuda, e que, quando não há o que fazer, precisa aceitar isso como parte da vida....você se ajuda!


Segue o fio aqui comigo que vou elaborar melhor essa ideia…


A vida nos coloca, diariamente, diante de muitos desafios. Vamos precisar tomar decisões, lidar com desconfortos, frustrações e executar tarefas práticas ou complexas. Ser humano implica em aprender a sustentar tudo isso. 


O bebê nasce completamente dependente de um cuidador, alguém que o mantenha vivo e o sustente psíquica e emocionalmente. O psicanalista Wilfred Bion propôs que o cuidador funciona como um continente para a experiência emocional do bebê: recebe sua angústia, acolhe aquilo que ainda é caótico e devolve algo mais suportável.  


Para visualizar melhor essa experiência, vamos pensar na mãe passarinho. Ela pega o alimento bruto, mastiga, transforma e oferece ao filhote algo que ele já consegue ingerir. De certo modo, o cuidador faz algo parecido: usa seu próprio "estômago mental" para transformar a angústia do bebê, que é uma experiência ainda indigesta, em algo que a criança possa suportar e compreender.


Conforme nos desenvolvemos, ganhamos autonomia. Aprendemos a nos alimentar, nos vestir e atender às nossas necessidades fisiológicas. Mas há outro aprendizado igualmente importante: sustentar partes do nosso mundo interno. Nomear emoções, reconhecer incômodos, perceber nossos limites e necessidades. Nesse sentido, amadurecer psiquicamente é tornar-se continente de si mesmo.


Isso não significa autossuficiência. Continuamos precisando dos outros. Mas desenvolvemos funções de cuidado de si. Winnicott fala da “mãe suficientemente boa”, aquela que não é perfeita, mas suficientemente sensível para acolher o bebê e, gradualmente, permitir que ele se frustre. Permite que o filho lide com a falta. Podemos pensar, de forma metafórica, em um “cuidador interno suficientemente bom”, uma parte de nós capaz de reconhecer necessidades e responder a elas sem perfeccionismo tão pouco negligência.


Ajudar-se não é eliminar o desconforto. É responder a ele de forma cuidadosa. Nem sempre conseguimos evitar a ansiedade ou a dor, mas podemos reduzir o sofrimento adicional que criamos quando lutamos contra aquilo que se apresenta.


O adulto maduro não é aquele que nunca sofre ou nunca se desorganiza. É aquele que reconhece que pode fazer algo com o que sente.


COMO?

Às vezes, a ação possível é pequena. Uma pessoa fazendo uma apresentação percebe a boca seca e o coração acelerado. Em vez de fingir que está tudo bem, toma água, respira e sustenta alguns segundos de silêncio. Eu suspirei de alívio aqui ao pensar nessa pausa.


Quando minha filha era bebê, eu entendi que precisava me alimentar antes de colocá-la para dormir. Já teve dias em que esse processo levou mais de 2 horas, estar alimentada não fazia o processo ser mais curto, mas mudava profundamente a minha presença e disponibilidade emocional.


Há momentos em que ajudar-se é pedir ajuda. Uma mãe solo sobrecarregada pode pedir a alguém que cuide da criança por algumas horas para que ela possa descansar. Uma pessoa emocionalmente sobrecarregada pode buscar psicoterapia, conversar com amigos ou pedir apoio à família. Reconhecer limites não é fraqueza; é cuidado.


QUANDO ENCONTRAMOS UM LIMITE?

E há experiências diante das quais nossa ação é limitada, por exemplo, diante do envelhecimento dos nossos pais e o nosso próprio, o fim de um relacionamento, a perda de alguém querido ou de um trabalho. Nesses momentos, ajudar-se pode significar aceitar os limites da própria ação e permitir-se viver o luto.


Ajudar-se é sustentar a própria vida com coragem e amorosidade. É saber que há momentos em que podemos agir, momentos em que precisamos pedir ajuda e momentos em que só nos resta aceitar a vida como a vida é.


 
 
 

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