Maternidade: entre o amor e a falta
- talita.galana

- 2 de fev.
- 3 min de leitura
Cada pessoa vive a maternidade a partir da sua própria história. Ainda que muitos desafios sejam comuns — o cansaço, as dúvidas, o excesso de responsabilidade — cada mãe e pai sente e significa essa experiência de um jeito singular.
A maternidade é um espelho que reflete a nossa história emocional, nossas referências e as marcas deixadas por quem nos cuidou. Por isso, ela é desafiadora, sempre única, pessoal e profundamente simbólica.
O que Freud nos ensina
Freud foi o primeiro a tirar a maternidade do campo do instinto e colocá-la no campo do desejo e do inconsciente. Ele mostrou que o amor materno não é natural, mas uma construção psíquica atravessada por afetos ambivalentes — ternura e raiva, prazer e culpa, desejo e limite.
Para ele, a mãe é o primeiro “outro” do bebê: aquela que traduz o choro, nomeia as sensações e dá sentido à existência. Mas é também a primeira ausência, a primeira experiência de frustração e separação, primeiro encontro com a falta.
É nesse jogo entre presença e falta que o sujeito começa a se constituir.
O início da vida psíquica
O bebê nasce em estado de desamparo. Ele depende 100% de alguém que o nutra, acolha, proteja, limpe, que o mantenha vivo. É o cuidado materno — ou de quem ocupa essa função — que o introduz no mundo humano, criando uma ponte entre o corpo e a linguagem.
Freud nos mostra que é nessa relação que surge o primeiro esboço do eu, o início da vida psíquica. A mãe é, por um tempo, o mundo inteiro do bebê e, pouco a pouco, precisa permitir que esse mundo se amplie, abrindo espaço para o pai, para a cultura, para o desejo e para a falta.
A função materna
A maternidade é também uma função simbólica — não se trata apenas de um laço biológico ou papel da mãe, mas de um modo de estar presente e de sustentar o outro no início da vida. A função materna é aquela que acolhe, nomeia, dá contorno e, depois, permite a separação.
É ela que ajuda o sujeito a encontrar um lugar no mundo, a reconhecer limites e a se constituir como alguém diferente. Cumprir essa função não é fazer tudo certo — é suportar a imperfeição, a falta e o não saber, e ainda assim permanecer suficientemente presente. E pode ser exercida pela mãe, pelo pai ou um cuidador.
Ser mãe ou pai x ser filha ou filho
A maternidade também reabre o caminho da própria infância. Ao cuidar de um filho, os pais reencontram lembranças e afetos antigos, reconhecem gestos herdados e revisitam a própria relação com seus parentais.
Por isso, tornar-se mãe/pai é também uma experiência de autoconhecimento. É um espelho que revela o que foi cuidado, o que ficou ferido e o que pode ser transformado.
A maternidade como experiência de humanização mútua
Humanizar um ser é introduzi-lo na linguagem, na cultura, nas relações, é ajudá-lo a se tornar sujeito. Mas, nesse processo, quem cuida também se transforma. A maternidade nos atravessa e nos reforma, porque nos coloca em contato com nossos limites, história, feridas, com o desamparo e com o poder de amar apesar da falta.
É uma experiência de construção mútua: enquanto o filho aprende a existir, a mãe e o pai reaprendem a ser.
Entre o ideal e o possível
A maternidade real é muito diferente da idealizada. Ela é feita de amor, mas também de cansaço, ambivalência, limite, culpa e desejo. Freud dizia que não há experiência mais humana do que essa, porque é nela que o ideal encontra o real. E, no meio desse encontro, nasce a possibilidade de se reinventar.
A maternidade é uma travessia. Um campo onde o amor, a falta e o desejo se entrelaçam. Um espaço de descoberta do filho e de si mesmo.
Mais do que um papel, é uma experiência viva de humanização mútua, onde se aprende, a cada dia, a ser menos ideal e mais humano. Ser mãe, ser pai, é sustentar o desejo de cuidar e crescer junto.
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