Confiança não é garantia. É sustentação.
- talita.galana

- 17 de fev.
- 2 min de leitura
Muitas pessoas dizem querer confiar no outro, mas, no fundo, desejam não se decepcionar. Buscam um vínculo em que o outro antecipe necessidades, reconheça limites sem que precisem nomeá-los e compreenda dores sem que precisem revelá-las.
Há certo consenso de que confiança envolve três elementos: risco, expectativa positiva e vulnerabilidade. Confiar é aceitar se expor à possibilidade de frustração com base na percepção de que o outro não agirá deliberadamente para ferir e poderá se responsabilizar quando falhar.
Confiança não é garantia; é uma aposta construída a partir da experiência.
Sem risco, não há confiança…só resta controle.
Sem expectativa positiva, resta o medo.
Sem vulnerabilidade, não há espaço para vínculo.
Do ponto de vista psicanalítico, o ser humano nasce em desamparo. Como formulou Freud, dependemos radicalmente de um Outro que nos mantenha vivos e nos ampare. A experiência inicial de cuidado funda as bases da confiança e do amor. Mas esse mesmo Outro também falha. Winnicott lembra que, em um ambiente suficientemente bom, há falta. E é na experiência entre falha e reparação que a confiança amadurece.
Na vida adulta, exigir garantias do outro costuma revelar o desejo de retornar a uma posição de proteção absoluta. No entanto, ninguém pode ocupar esse lugar sem que a relação se torne sufocante ou impossível. Além disso, o outro também é um universo, atravessado por desejos e necessidades próprias.
A clínica mostra que o essencial não é assegurar que o outro nunca frustrará, mas fortalecer a capacidade psíquica de lidar com a frustração quando ela vier.
Confiança desloca-se, então, de fora para dentro.
Não é acreditar que o outro jamais nos machucará, mas saber que podemos atravessar a experiência sem nos abandonar. Podemos sustentar o desconforto, o vínculo ou a partida.
Podemos reconhecer o que sentimos e nomear o incômodo
Podemos estabelecer limites
Podemos sustentar conversas difíceis
Podemos, se necessário, partir
O medo da decepção pode nos levar a erguer muralhas que protegem da dor, mas também impedem o encontro.
Confiança é sustentação interna para avaliar riscos, comunicar limites e permanecer em relação sem se perder de si.
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